26 de janeiro de 2012

Fair Play





Foto de Candice Hoffman

Definitivamente não poderíamos ter vestido as mesmas fantasias e nem pular feliz o mesmo carnaval. Fomos feitos para relembrarmos um ao outro sobre o momento de partida, o sinal da derrota, a certeza do elo quebrado. Nossos corpos se contradizem e nossas expressões jamais foram harmoniosas. Fomos extraídos de uma mesma situação, mas de combinações tremendamente opostas.

Tudo não teria passado de uma ironia do destino. Antes eu não tivesse percebido a ironia e tudo teria terminado ali – nas coisas que denominamos de acasos. Se eu não tivesse bisbilhotado, metido o dedo na ferida tudo não passaria de uma simples coincidência que não se baseou em coexistência. Pra que investigar?

Melhor seria deixar pra lá. Rasgar a página, amassar em bolinha e designar todo o peso ao fundo do lixeiro. Por que advém de minha pessoa essa mania de calcular, usar microscópio e desejar ver de pertíssimo o que foi feito pra não ser visto ou denunciado?

Pra quê entender? Melhor seria enterrar, fazer uma prece e deixar partir. Como pomba mágica da paz. Com aqueles olhos que usamos para enxergar tudo que já passou – aquele olhar atrasado. Inflar o peito em redundante alívio.

Não tinha como ser melhor – não tinha como ser diferente. Sentença exata, onde eu quis ser a mestra das combinações e, no entanto só fui mais um fator. Jogatina pura, mas do tipo jogo limpo- fair play.

E nessas horas os certames sobre o certo e o errado vão aos ares. A vida desenhou-se, por fim.

Ananda Sampaio***


8 de janeiro de 2012

As fotografias




“É noite que vai chegar, é claro é de manhã. É moça e anciã” – Zé Ramalho

Elas estavam por toda parte... Nas paredes, sobre o criado mudo, nas estantes. Como alegorias, provas de uma vida vivida. Tinha medo que elas se alastrassem a tal ponto que minha casa se tornasse inabitável para mim. Eternas reminiscências reveladas em papel fotografia.

Provas cabais da minha existência – sempre tive medo de acordar um dia e perceber que passei a vida dormindo. Tal qual cena épica do Matrix.

As fotografias são para mim uma inquestionável amostra de que somos um eterno não ser. Ali naquelas cenas antigas pousa uma pessoa com meu corpo, mas que já deixei de ser há muito tempo. É a assertiva enfática da eterna metamorfose – a que se está sujeito.

Você disse pra mim que te angustiava aquele montante de fotos espalhadas pela casa. Eram a prova da incerteza, da falta de controle sobre o que virá. Era a materialização da certeza sobre a nossa falta de poder – até mesmo sobre nós.

É o reinado absolutista do tempo que as impregna que te maltrata. O quanto somos triturados, remodelados e refeitos de novo e novamente e mais uma vez... Material eternamente inacabado.

É a eternização de um segundo exato. Pra quem tem olhos que enxergam é possível observar que ali estão não apenas a representação dos corpos físicos, mas também das quimeras da juventude, a ganância de vida da infância e o cansaço da velhice.

Está tudo lá... Arregala o olho e percebe. O que te atormenta eu também posso ver, é a nossa eterna submissão ao intocável. Uma submissão velada, de acordos tácitos invisíveis a fotografia.

Quando você olha para aqueles antigos retratos é angústia, o medo, a alegria e a espera daquele felicidade que está sempre por vir. O que te acovarda não são as pessoas, ou a nostalgia per si. São as verdades roubadas, as tarefas deixadas pelo caminho e todas as pessoas que você um dia foi. O que amedronta é o indecifrável presente.

Ananda Sampaio***