28 de outubro de 2009

Para meus cães



Meu melhor amigo tem 4 patas

Ele não fala, late

Ele jamais me consola, apenas sente o silêncio ao meu lado

Meu melhor amigo é branco com pintinhas pretas ou preto com pintinhas brancas

Adora carinho e faz meu pé de travesseiro

Sempre sabe antes de todo mundo, quando estou chegando em casa

Ele não beija, lambe meu rosto

quando não encontra uma maneira melhor de dizer 'eu te amo'

Meu melhor amigo não precisa de sapatos, roupas...

muito menos sonha em comprar um carro

Prefere os longos percursos a pata

Meu melhor amigo jamais desejará algo que é meu

Nós nunca brigamos e caso aconteça sei que sempre terei teu perdão

Ele não pode lacrimejar, mas pode chorar

Meu melhor amigo tem pêlos, patas e focinho

Ele é um cão.


Ananda Sampaio***

7 de outubro de 2009

Arquitetura




O alicerce do teu ser ruiu. E assim tu te transformou em pó, em algo que não é tu, mas que é feito de ti. E desta maneira, eu não te conheço mais, não te identifico meio a multidão de gente tão igual.


Nos passos loucos e apressados da senhora vida a gente foi se perdendo, até nos habituarmos definitivamente planetas díspares. Somos seres ambíguos e nossa relação tornou-se transitória, intermitente. Luzes que se apagaram e não tem previsão de quando se acenderão.

Nas tuas lágrimas eu já nadei, nos tormentos de tuas dores eu já morri. E hoje não te conheço, você se cuspiu, se escarrou.


E eu não sou anjo, mas minhas asas partiram-se.


Por que eu quis!?!? Talvez, porque eu era anjo, mas de pedra, mármore. Fixo, cinza. A leveza que impulsionava minh'alma ao céu, era tu. E mesmo eu sendo anjo denso, eu era anjo. Mas, as tuas feridas eu fui capaz de sanar. E se agora, alguma chaga reabri, desculpa-me.


Se agora são silenciosas nossas bocas e olhos e mãos resta-nos ainda o coração.


Ananda Sampaio****

18 de agosto de 2009

Inspiração








“Feliz é o destino da inocente vestal


Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida


Brilho eterno de uma mente sem lembranças!

Toda prece ê ouvida, toda graça se alcança.”Alexander Pope



Depois de algum tempo sem escrever, sem desgastar os dedos com a ponta do lápis... os pensamentos rasos, tornam-se cada vez mais rasos até por fim evaporarem. Por isso é necessário dizer que abençoados são os que tem o dom de inspirar, dando uma força e retirando do fundo do poço aquela falta de sensibilidade, por vezes abandonada.



Após assistir várias vezes o mesmo filme, talvez meu filme preferido. Brotam de mim novos questionamentos, ou até mesmo questionamentos caquéticos que retornam saudáveis a luz do pensamento. Amo falar do amor, por mais que se tenha falado, existem sempre maneiras diferentes e inovadoras de dizermos as mesmas coisas.



Particularmente o cinema não é para mim apenas uma maneira de escapulir da minhas angústias, ou dos meus conflitos infantis. É uma fonte inspiradora de questionamentos e de encontros não programados comigo mesma. Quando encontro na limitação das coisas materiais algo que contribua para preencher minha lacunas, devoro-o sem pensar. Traduzindo, quando encontro um filme que amo, assisto tantas vezes que quase chego a exaustão.



Sempre fui um pouco blassé. São poucas as coisas que me instigam, assim como também são as pessoas. Não gosto muito de coisas, dentre as poucas gosto de livros , de filmes e de cachorros. Gosto mesmo de me comunicar com essas três gêneros. O resto é resto.



Sou dessas pessoas chatas, que sempre tem teoria, que quase sempre leu um livro ou um filme que falava sobre alguma coisa. Sou dessas pessoas que escuta música em suma feita por quem já morreu. Dessas chatas que não gostam de piada. Gosta de humor.



Ananda Sampaio***





16 de abril de 2009

'Tempo, tempo, tempo mano velho"






"Batidas na porta da frente é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar e eu não sei"
Nana Caymmi : Resposta ao tempo(Aldir Blanc/ Cristovão Bastos)

Para esclarecer alguma coisa ela disse:




- Sou extremamente nostálgica.


-Por quê? - Perguntou ele.


-Faz parte da minha natureza me deparar o tempo todo com o que passou.


- Nostalgia dói?


-Sim, às vezes.Porque é uma saudade diferente. Não serve apenas pra dar sentido ao tempo
enquanto o reencontro não chega.


- Então , por que senti-la?


- Porque a saudade é prova de que o que foi vivido valeu a pena.Só sentimos saudade do que foi bom.


- E o presente não importa pra você?- Perguntou estarrecido.


- Sim, claro. Mas, o presente não senta comigo à porta , nem me sussurra ao ouvido quando me debruço sobre a janela.


- Você quer dizer que o presente nunca existe?


- De fato sim, nunca me lembrei dele e nunca pude saber exatamente onde encaixá-lo.


Ele calou-se. A conversa continuou preenchida da pensamentos silenciosos.
Ananda Sampaio***

26 de março de 2009

Smells and Tastes








Mais um dia que a chuva chora sobre essa minha cidade tão tropical. O chão frio, as paredes úmidas com um cheiro de mofo, as roupas já irritadas não conseguem secar nunca, não suportam mais o varal. As pessoas escondidas sob seus guarda-chuvas.
Ultimamente tem sido assim. Hoje , eu na minha individualidade resolvi não sair de casa, enquanto todos os outros saíram para por fim encontrar algum sentido. Eu enquanto isso resolvi num veredicto especial manter-me em polvorosa solidão gratuita, difícil de entender?

Ainda não tomei banho e lembrei que hoje é dia de lavar o cabelo. Estou vestida com uma roupa velha e confortável, me alimentando de silêncios. Encostada na parede, sentada.
De repente me perco em lembranças remotas e em pensamentos banais.Observo minha unha do dedão do pé, como ela é obtusa! Lembro que sempre detestei meu pé, um sorriso satírico de canto de boca surpreende meu rosto.

Tento recordar o que comi no almoço, sobre o que falei hoje...ás vezes eu gosto de testar meu cérebro sobre coisas corriqueiras para não ter que gastá-lo sempre com reflexões tão sérias e profundas.
Sou difícil até mesmo na minha própria compreensão. Tento saber porque gosto tanto de jambo e por que sempre detestei beterraba... para falar a verdade meu paladar sempre foi muito preconceituoso.


Sorrio.
Fecho os olhos.
Relaxo e deixo livre minha mente.
Esvazio.
De repente um campo, com um horizonte similar àqueles de desenhos infantis. Os pés estão descalços (eu sinto), eu corro, vento no rosto... flores e cores e sol. Sensação gostosa de calor, pele queimando.


Tudo some. Meu avô me sorri, Flavinha beija meu rosto. Minha primeira professora, Brasília e suas retas tão orgulhosas, amigos, cavalos, fazenda, riacho, meus cachorros correm e meu amor aqui dentro pulsa... cheiros e gostos tumultuam meus sentidos. Sou feliz e de solavanco triste.


Minha vida passa ali , diante de mim.
Minha alma estremece.
E eu ainda existo.

Ananda Sampaio***

2 de fevereiro de 2009

Não tem preço




"An' what is all comes down to
Is that I haven't got it all figured out just yet
Coz I've got one hand in my pocket
And the other one is giving the peace sign
I'm free but I'm focused"
Alanis Morissette: Hand in my pocket

Ás vezes as pessoas cansam-se umas das outras, normal (eu acho) . Algumas me cansam pelos os seus inúmeros 'não me toque' ou pelo fato de transformarem coisas pequenas e insignificantes em gigantescas tragédias. A vida tem drama, mas também tem comédia e humor. Ás vezes cabe a nós escolher qual destes será o fundo que enfeita o palco da vida que temos.



Se os amigos e os amores serão perdidos porque tem uma coisa neles que não gostamos... é como jogar fora uma das várias maneiras de ser feliz, por causa de um empecilho. É covarde esconder-se sempre atrás de uma personalidade que não é a sua, pra ver se assim a vida fica fácil se as coisas caminharão pra frente , quem sabe o amor da sua vida abra os olhos e decida enxergar você. Ilusão das bobas, a vida nunca vai se redimir diante de quem tem medo dela, ela espera os olhos nos olhos.




Tenho muito medo de cansar as pessoas seja com minha idéias, ideais ou pela maneira que eu sou e pratico minha conduta. O que eu sei é todos que vivem passam por constantes mudanças é a ordem natural da vida, mas tenho certeza que vem guardado dentro de nós uma essência que não pertence a ninguém e que não cabe a nós modificar...

Nada vale a nossa real natureza.







Ananda Sampaio***




18 de janeiro de 2009

Silence Sign

"Come on in/ I've gotta tell you what a state I'm in/ I've gotta tell you in my loudest tones/ I started looking for a warning sign"
ColdPlay: A warning Sign







Nem sempre as luzes se acendem, verdade cruel e crua. Não há como enxergar saída ou solução, difícil é acreditar que ela existe. É aí que entram as mãos , os dedos, o tato e quem sabe a voz por socorro, na esperança que mais alguém esteja com o barco ancorado por perto.

Dói e dizer que dói é banalizar a dor, torna-la cabível.E não, a tristeza e toda essa coisa de melancolia é obtusa. Não cabe entre vírgulas, não finaliza com o ponto final e nem se adjetiva. Ser triste é sentir falta de ser feliz.

É procurar em campos estéreis a flor da alegria, mesmo que momentânea e sem significado. Porque estar feliz é deixar que as coisas percam o sentido, tornar as coisas simples. É evitar os questionamentos. Quem nunca se sentiu triste? porque o sol não saiu, ou porque você queria um beijo de amor e não de amigo. É extensa a lista de momentos em que o mundo descolore, fica opaco, seco e áspero.

Lágrimas são água, porque se espinhos fossem só choraríamos uma vez. São elas que mostram quão podemos ser humanos, de carne, osso e coração. Muitas vezes as pessoas passam muito rápido pelas ruas, pelas praças e principalmente uma pelas outras, mundos que se tocam...mas, que não se agarram pelas mãos.

Estar triste não é pedir socorro, mas calar a voz. Deixar uma só voz tagarelando, a do interior. É o passo lento, leve e só.


Ananda Sampaio***