Definitivamente não poderíamos ter vestido as mesmas
fantasias e nem pular feliz o mesmo carnaval. Fomos feitos para relembrarmos
um ao outro sobre o momento de partida, o sinal da derrota, a certeza do elo
quebrado. Nossos corpos se contradizem e nossas expressões jamais foram
harmoniosas. Fomos extraídos de uma mesma situação, mas de combinações
tremendamente opostas.
Tudo não teria passado de uma ironia do destino. Antes eu
não tivesse percebido a ironia e tudo teria terminado ali – nas coisas que
denominamos de acasos. Se eu não tivesse bisbilhotado, metido o dedo na ferida
tudo não passaria de uma simples coincidência que não se baseou em coexistência. Pra que investigar?
Melhor seria deixar pra lá. Rasgar a página, amassar em
bolinha e designar todo o peso ao fundo do lixeiro. Por que advém de minha
pessoa essa mania de calcular, usar microscópio e desejar ver de pertíssimo o
que foi feito pra não ser visto ou denunciado?
Pra quê entender? Melhor seria enterrar, fazer uma prece e
deixar partir. Como pomba mágica da paz. Com aqueles olhos que usamos para
enxergar tudo que já passou – aquele olhar atrasado. Inflar o peito em
redundante alívio.
Não tinha como ser melhor – não tinha como ser diferente.
Sentença exata, onde eu quis ser a mestra das combinações e, no entanto só fui
mais um fator. Jogatina pura, mas do tipo jogo limpo- fair play.
E nessas horas os certames sobre o certo e o errado vão aos
ares. A vida desenhou-se, por fim.
Ananda Sampaio***

